Ao longo dos anos, tenho tido o privilégio de trabalhar com atletas, treinadores e diferentes agentes do ecossistema desportivo. Essa proximidade permite-me, sem qualquer hesitação, afirmar algo que continua ainda subestimado: o talento, por si só, não chega. No desporto contemporâneo, cada vez mais exigente, global e competitivo, a formação deixou de ser um complemento para se tornar uma verdadeira condição de sustentabilidade das carreiras.

Durante muito tempo, o desporto viveu preso a uma narrativa romântica que passava pela ideia de que o sucesso dependia (quase) exclusivamente do esforço físico, da disciplina e do talento inato. Hoje sabemos que essa visão é incompleta e que um atleta de alto rendimento não é apenas um corpo que executa. É uma pessoa que decide, comunica, lidera, aprende e se adapta. Mas tudo isto exige formação.

E quando falamos de formação no desporto não falamos apenas de cursos técnicos ou certificações formais. Falamos de desenvolvimento humano e profissional. Isto significa preparar indivíduos para lidar com a pressão, com a gestão de carreira, com a comunicação, com a tomada de decisão, com o erro e, inevitavelmente, com a transição para a vida pós-competitiva.

Um dos maiores paradoxos do desporto é precisamente este: preparamos atletas para competirem ao mais alto nível, mas nem sempre os preparamos para viverem depois desse pico (de sucesso). Muitos chegam ao final da carreira sem ferramentas para gerir finanças, para reintegrar o mercado de trabalho e/ou até para redefinir a sua identidade fora da competição. A formação é, por isso, uma questão de responsabilidade social.

O mesmo se aplica aos treinadores. Hoje, o treinador não é apenas um especialista técnico. É um líder, um gestor de pessoas, um comunicador, um educador e, muitas vezes, um modelo de referência. Trabalha com equipas cada vez mais diversas, com atletas de diferentes culturas, gerações e expectativas. Lida com desafios que vão muito além do campo: saúde mental, motivação, gestão de conflitos, relações com famílias, patrocinadores e media. E é também, no meu entender, um professor de competências humanas e sociais para os seus atletas.

Sem formação contínua, o treinador arrisca a ficar preso a modelos ultrapassados, perdendo capacidade de adaptação a um contexto que muda rapidamente e a liderança no desporto moderno exige competências que não se aprendem apenas pela experiência prática – exigem reflexão, aprendizagem estruturada e contacto com novas perspectivas.

Também os dirigentes e demais agentes desportivos enfrentam hoje desafios complexos uma vez que a profissionalização do sector trouxe exigências relacionadas com governança, ética, sustentabilidade, digitalização e impacto social. Já não basta “gostar de desporto” para gerir uma organização desportiva. É necessário compreender modelos de negócio, políticas públicas, financiamento, comunicação estratégica e princípios ESG.

É precisamente neste contexto que a formação assume um papel transformador. Não apenas como transmissão de conhecimento, mas como um processo que amplia horizontes, cria consciência e desenvolve autonomia.

E foi precisamente com essa convicção que nasceu a Sports Embassy.

Desde o início, acreditámos que o desporto tem um potencial único para desenvolver competências que são transferíveis para todas as áreas da vida. O campo, o balneário e a competição são verdadeiras escolas de liderança, resiliência, trabalho em equipa ou tomada de decisão. Contudo, essas aprendizagens nem sempre são reconhecidas, estruturadas ou valorizadas fora do contexto desportivo e o nosso trabalho tem sido precisamente esse: traduzir o que se aprende no desporto para o ‘mundo real’.

Ao longo dos anos, temos desenvolvido programas de formação que ajudam atletas a compreender o seu valor para além do desempenho competitivo. Programas que lhes permitem identificar competências, preparar carreiras, desenvolver literacia financeira e construir projectos de vida sustentáveis.

Mas o impacto não se limita aos atletas. Trabalhamos também com treinadores, dirigentes, federações e empresas, promovendo uma visão mais ampla do desporto enquanto ferramenta de desenvolvimento humano e social que vai para além do entendimento técnico ou táctico das suas modalidades.

A formação que defendemos não é teórica nem distante da realidade. É prática, contextualizada e profundamente humana. Parte das experiências concretas das pessoas e procura responder às suas necessidades reais. Utiliza a linguagem do desporto — a linguagem do balneário, da equipa e do desempenho — para tornar o conhecimento acessível e relevante.

Num mundo em constante mudança, onde as carreiras são cada vez menos lineares, a formação contínua torna-se um dos maiores factores de empregabilidade e adaptação. No desporto, esta necessidade é ainda mais urgente, porque as trajectórias competitivas são, por natureza, curtas e intensas.

Investir na formação de atletas e agentes desportivos não é apenas investir em indivíduos. É investir na qualidade do próprio sistema desportivo e é promover organizações mais sustentáveis, líderes mais conscientes e carreiras mais equilibradas. Acima de tudo, é reconhecer uma verdade essencial: o desporto não forma apenas campeões – forma pessoas.

Quando damos às pessoas ferramentas para compreender, valorizar e transferir aquilo que aprendem no desporto, estamos a ampliar o impacto dessa experiência para muito além das medalhas, dos resultados e das classificações.

É esse o verdadeiro legado que a formação pode deixar no desporto: não apenas melhores profissionais, mas cidadãos mais preparados, mais conscientes e mais capazes de contribuir para a sociedade.

E é precisamente por isso que continuamos a acreditar, todos os dias, que formar no desporto é, no fundo, formar para a vida.

 

Artigo escrito por:

Inês Caetano

  • Fundadora do Projecto Sports Embassy