Um atleta pode ser mais forte, mais rápido e mais resistente do que o adversário e, ainda assim, chegar atrasado à jogada. Porquê? Porque no desporto de alto rendimento não basta mover-se depressa: é preciso perceber depressa, decidir depressa e só depois agir depressa.
É aqui que entra o treino visual e cognitivo.
Quando um guarda-redes antecipa a trajetória da bola, um jogador de basquete identifica uma linha de passe antes de ela surgir ou um tenista lê a orientação corporal do adversário, os olhos não estão simplesmente a “ver”. O cérebro está a selecionar informação, prever acontecimentos e transformar perceção em ação.

Afinal, em que consiste?
O treino visual e cognitivo procura desenvolver capacidades envolvidas na relação olho–cérebro–movimento, como atenção visual, velocidade de processamento, tempo de reação, antecipação, memória de trabalho, controlo inibitório, coordenação óculo-manual e tomada de decisão.

Pode incluir exercícios de reação a estímulos, seguimento de vários objetos, tarefas de visão periférica, situações de dupla tarefa, treino através de vídeo ou realidade virtual, exercícios de quiet eye — estabilização do olhar em informação relevante antes da execução — e tarefas realizadas com óculos estroboscópicos, que interrompem momentaneamente a informação visual.

Mas há uma condição essencial: treinar num ecrã não significa automaticamente jogar melhor no campo.
Uma meta-análise sobre treino percetivo-cognitivo em modalidades coletivas verificou melhorias na antecipação e tomada de decisão, mas mostrou também que os ganhos obtidos em laboratório são superiores aos que posteriormente se transferem para o jogo real.

É talvez a mensagem mais importante para quem prescreve treino: quanto mais o exercício conservar a lógica perceptiva e motora da modalidade, maior a probabilidade de transferência.

O que diz a ciência?
A evidência atual é encorajadora. Atletas experientes distinguem-se dos menos experientes não apenas pela técnica, mas também pela capacidade de reconhecer pistas relevantes mais rapidamente, apresentar respostas mais precisas e utilizar estratégias visuais mais eficientes.

Estudos recentes encontram igualmente associações entre menores tempos de reação visual e melhor desempenho em desportos coletivos, enquanto algumas capacidades visuais básicas, isoladamente, parecem ter uma relação muito menor com a performance.

O treino com óculos estroboscópicos é um exemplo particularmente interessante.

Também o quiet eye apresenta resultados relevantes: atletas mais qualificados tendem a estabilizar o olhar durante mais tempo nos estímulos importantes, e intervenções destinadas a treinar esta estratégia têm demonstrado benefícios na execução.

Então devemos acrescentar mais um “treino” à semana?
Não necessariamente. O maior potencial poderá estar na integração, e não na acumulação.
Em vez de separar cérebro, olhos e corpo, podemos criar tarefas onde o atleta tenha de acelerar, travar ou mudar de direção em resposta a informação real; executar um passe depois de identificar rapidamente uma opção; reagir simultaneamente a adversários e companheiros; ou tomar decisões progressivamente mais difíceis sob fadiga e pressão temporal.

O objetivo deixa de ser apenas fazer cones mais depressa. Passa a ser chegar ao sítio certo porque se percebeu primeiro o que estava a acontecer.

Para treinadores e preparadores físicos, esta mudança é fundamental: não medir apenas quanto tempo o atleta demora a completar uma tarefa, mas também se escolheu a resposta correta, quando iniciou essa resposta e que informação utilizou para decidir.

O treino visual e cognitivo não substitui força, velocidade, técnica ou treino tático. Também não é uma solução milagrosa oferecida por luzes, aplicações ou óculos tecnológicos. É antes uma peça adicional de um sistema complexo. No alto rendimento, décimas de segundo contam. Mas, muitas vezes, a verdadeira vantagem não está em conseguir mover o corpo uma décima de segundo mais depressa. Está em o cérebro perceber uma décima de segundo mais cedo para onde o corpo deve ir.