Formação contínua: o que distingue os treinadores que continuam a evoluir ao longo da carreira?

A sessão terminou e o plano foi cumprido. Os exercícios decorreram como previsto, fluidos, quase coreografados e o treinador saiu com a sensação de trabalho bem feito. Nada neste cenário sugere um problema. No entanto, talvez seja quando tudo parece funcionar que o desenvolvimento profissional tende a abrandar, porque sem dificuldade ninguém faz perguntas e sem perguntas dificilmente há aprendizagem.

Todos os treinadores acumulam anos de carreira, mas nem todos acumulam desenvolvimento. Há quem, ao fim de vinte anos, tenha construído vinte anos de evolução, e há quem tenha repetido vinte vezes o primeiro ano de experiência. A diferença raramente está no talento ou no número de cursos frequentados. Está na forma como cada um viveu essa experiência, que, entregue a si própria, tende a trabalhar contra a aprendizagem. Vai tornando as decisões automáticas e as rotinas confortáveis, até que a fluência começa a parecer competência. E não são a mesma coisa.

A experiência oferece acontecimentos. A reflexão transforma-os em aprendizagem.

Costuma dizer-se que a experiência torna os treinadores melhores, mas a verdade é que apenas cria oportunidades para aprender e não garante, por si só, evolução. Entre o que um treinador vive e o que verdadeiramente aprende existe um passo decisivo, a reflexão sobre a própria prática. Refletir, porém, não é recordar como correu o treino. É confrontar o que se pretendia com o que realmente aconteceu, sobretudo quando correu bem, porque é aí que ninguém pergunta porquê. E pode ser tão simples quanto sistemático. Pode passar por rever dez minutos de vídeo com uma pergunta concreta, por registar ao fim de cada semana uma decisão que funcionou e outra que não, ou por pedir a um colega que observe um treino e nos diga o que viu e não o que gostaríamos que tivesse visto. Sem esta disciplina, a experiência acumula-se e a aprendizagem nem sempre a acompanha.

O conhecimento raramente transforma um treinador por acrescentar respostas. Transforma-o quando o obriga a reformular perguntas.

Imaginemos dois treinadores no mesmo congresso. Escutam os mesmos oradores, tomam notas semelhantes e regressam com a mesma informação. Semanas depois, um continua a treinar da mesma forma, enquanto o outro já alterou a forma como comunica, a estrutura das tarefas e os critérios de observação. A informação recebida foi igual, a aprendizagem não. O impacto de uma ação de formação não se mede pelo entusiasmo do momento nem pelo certificado obtido. Mede-se mais tarde, quando o treinador experimenta uma ideia, observa os efeitos e decide mantê-la, adaptá-la ou abandoná-la. O que conta não é o que ouviu, mas sim o que decidiu fazer de forma diferente.

Há, aliás, uma pergunta que revela mais sobre o desenvolvimento de um treinador do que qualquer currículo. O que deixou de fazer nos últimos dois anos? Que exercício abandonou, que forma de comunicar corrigiu, que certeza reformulou? Quem responde “nada” provavelmente ainda não encontrou as suas limitações, e isso diz mais sobre a qualidade do olhar do que da prática. A evolução de um treinador lê-se menos no que acrescentou e mais no que teve a coragem de abandonar. Confesso que também faço esta pergunta a mim próprio com regularidade. E nem sempre gosto da resposta.

Há um contexto onde tudo isto ganha particular importância, o da formação desportiva. Trabalhar com jovens atletas é porventura o ambiente mais exigente e rico da carreira de um treinador. É nos escalões de formação que o treino é mais genuinamente pedagógico, porque ali se ensina a jogar e a diversidade de problemas é maior, com estádios de maturação distintos, primeiras aprendizagens e motivações diferentes. É também ali que o treinador deixa marcas mais duradouras na relação dos atletas com o treino, com o erro e com a modalidade. Por tudo isto, a formação desportiva não deve ser vista como etapa menor da carreira nem como sala de espera para o alto rendimento. É um verdadeiro laboratório de desenvolvimento profissional, e quem trabalha com quem está a aprender tem a obrigação de nunca deixar de o fazer.

Nada disto é confortável. É muito mais fácil procurar conhecimento que confirme aquilo em que já acreditamos do que aceitar que uma estratégia usada durante anos pode já não ser a mais adequada. Mas os treinadores que continuam a evoluir não são os que mudam de opinião a cada tendência. São os que mantêm curiosidade suficiente para questionar as próprias certezas e rigor suficiente para fundamentar as mudanças que introduzem. Aprender não é mudar constantemente, mas sim desenvolver melhores critérios para decidir quando vale a pena mudar. E, ainda assim, é isto que mantém a profissão viva. Poucas coisas dão tanta energia a um treinador como descobrir que ainda há algo por aprender no jogo que julgava conhecer.

Esta responsabilidade, porém, não é apenas individual. A reflexão precisa de condições, de tempo para pensar o treino, de contextos onde admitir dúvidas não seja percecionado como fraqueza, e de espaços onde os problemas se discutam sem receio de julgamento. Clubes e federações que se limitam a contabilizar horas de formação promovem acumulação. Os que criam comunidades de prática, observação entre pares e acompanhamento próximo promovem desenvolvimento.

E é, acima de tudo, uma responsabilidade ética. Quando um treinador deixa de procurar melhorar, limita as oportunidades de aprendizagem dos atletas que acompanha. Os atletas evoluem, o jogo evolui e o conhecimento renova-se, pelo que intervir hoje da mesma forma que há quinze anos atrás, dificilmente responde às exigências atuais da modalidade, por maior que seja a experiência.

Daqui a vinte anos, todos os treinadores de hoje terão acumulado vinte anos de experiência. Alguns terão também vinte anos de aprendizagem. A diferença estará, como sempre esteve, no que cada um fez com os treinos que correram bem.