O Hóquei em Patins tem evoluído ao longo dos anos e, com ele, também as exigências colocadas aos atletas e aos seus elementos técnicos. O aumento da intensidade do jogo, a capacidade de realizar ações de elevada intensidade de forma repetida e calendários competitivos cada vez mais preenchidos obrigam-nos a olhar para a preparação física como uma parte integrante do processo de treino e não como um complemento.
Já no meu percurso académico, a análise da modalidade apontava para uma maior presença relativa de ações de alta intensidade, reforçando a necessidade de acompanhar aquilo que o próprio jogo nos exige. Neste contexto, o papel do Preparador Físico vai muito além do trabalho realizado no ginásio e de orientar o aquecimento. Deve existir uma participação ativa no planeamento e periodização da época, procurando desenvolver as capacidades físicas dos atletas, gerir as exigências do treino e da competição e contribuir para que estes estejam disponíveis para treinar e competir durante o maior período de tempo possível. No final, o objetivo do Preparador Físico é relativamente simples, mas não é de fácil alcance: preparar melhor o atleta para aquilo que vai encontrar na pista.
O Hóquei em Patins caracteriza-se por acelerações, travagens, mudanças de direção e esforços de diferentes intensidades, apresentando um perfil marcadamente intermitente. Por isso, considero particularmente importante desenvolver a capacidade de repetir ações ao longo do jogo, a velocidade e a agilidade, a potência, a força e uma resistência específica que permita manter níveis elevados de rendimento. A isto juntam-se a bola, o stick e o adversário, elementos que aumentam a incerteza e a variabilidade das ações. Nos guarda-redes, naturalmente, as necessidades assumem características diferentes, com especial importância para a mobilidade, a força explosiva e o tempo de reação. Consequentemente, o trabalho realizado fora da pista tem de ter um propósito dentro dela. É precisamente aqui que, muitas vezes, treinadores e atletas não percebem a sua verdadeira essência. O ginásio surge como um meio para um fim. Não procuramos criar halterofilistas, procuramos atletas mais capazes, mais rápidos, mais fortes e menos suscetíveis a lesões. Isso implica, muitas vezes, perder o receio de utilizar cargas elevadas, desde que o atleta esteja preparado para o fazer. O desenvolvimento da força, nas suas diversas vertentes, constitui uma ferramenta importante dentro do processo de preparação. Se queremos atletas potentes, precisamos de desenvolver atletas fortes. A literatura recente reforçava a importância da força e da potência muscular na capacidade de manter os esforços específicos com maior eficiência e eficácia. Também continuam a existir alguns mitos associados à preparação física no Hóquei. Um exemplo é a ideia de que o trabalho pliométrico não tem grande aplicação porque o jogador de Hóquei “não salta”. Parece-me uma interpretação demasiado literal da especificidade. O objetivo da pliometria não é fazer com que o jogador salte em jogo ou em treino, mas desenvolver mecanismos neuromusculares presentes em ações explosivas do Hóquei, como acelerar, travar, mudar rapidamente de direção ou rematar.
Ao longo dos anos, a minha forma de olhar para o treino também mudou. Hoje acredito cada vez mais em fazer o básico muito bem feito. Num momento em que temos acesso constante a novos exercícios e metodologias, é fácil confundir novidade com qualidade, e ficar perdido numa mistura de exercícios que muitas vezes não se enquadram nos objetivos que foram delineados para aquela sessão de treino. Um exercício diferente não é necessariamente um exercício melhor. Para existir evolução tem de existir intenção, consistência e, sobretudo, adaptação. É precisamente aqui que considero fundamental a formação contínua. A meu ver, formação contínua não significa apenas realizar cursos ou acumular certificados. Significa procurar conhecimento, saber filtrá-lo e depois aplicá-lo. Essa procura pode surgir através da investigação científica, da formação académica, de congressos, de conversas com outros profissionais, de aulas, livros, vídeos ou simplesmente de uma dúvida que surge no nosso trabalho diário. Mais importante do que acumular informação é permitir que essa informação transforme a nossa forma de trabalhar. A formação contínua ajuda-nos a questionar ideias que anteriormente dávamos como certas, atualizar métodos, interpretar melhor aquilo que observamos nos atletas e tomar decisões com maior critério. Obriga-nos também a reconhecer que o conhecimento evolui e que aquilo que fazíamos há alguns anos pode já não ser aquilo que consideramos hoje a melhor solução. Contudo, o conhecimento só ganha verdadeiro valor quando somos capazes de o enquadrar no contexto que está à nossa frente. Nem tudo o que funcionou num artigo científico, noutra modalidade ou com outro grupo de atletas significa que vá funcionar no nosso contexto.
Com isto quero dizer que o treino acaba por ser também um processo de tentativa, erro, avaliação e reformulação. A experiência no terreno é fundamental para perceber o que resulta, para quem resulta e em que momento deve ser utilizado. Da mesma forma, ser um bom Preparador Físico não depende apenas do domínio técnico, tático ou físico, até porque estas dimensões se complementam constantemente. Trabalhamos com pessoas. A relação com atletas, treinador principal, fisioterapeutas e restantes elementos do staff é determinante.
A minha própria experiência no alto rendimento e na formação mostrou-me que o trabalho deve ser holístico, com as várias áreas a complementarem-se e a contribuírem para um objetivo comum.
