Nesta edição do Blog da Team Performance, aprofundamos um tema transversal ao desempenho no desporto: a importância da formação de Treinadores, da comunicação Treinador-Atleta e de uma cultura de desenvolvimento bem estruturada entre atletas e equipas técnicas.

Trazemos uma conversa com João Rodrigues, atleta de Hóquei em Patins no Benfica, para explorar as suas vivências no alto rendimento, a relação com a equipa técnica e a importância de uma formação contínua dos Treinadores para potenciar o rendimento individual e colectivo.

Nesta entrevista, procurámos sobretudo extrair perspetivas práticas e inspiradoras sobre como se constrói um ambiente de treino efectivo, como se gere a evolução de carreira e qual o papel de uma cultura formativa forte no desporto moderno em Portugal.

Começando pelo teu percurso, como é que a formação que recebeste enquanto jovem jogador te moldou como atleta, e que impacto teve isso no teu caminho até à Elite do Hóquei em Patins, nomeadamente ao Benfica e ao Barcelona?

A formação que recebi enquanto jovem jogador no meu clube de formação (C.D. Paço de Arcos) foi absolutamente decisiva para aquilo que sou hoje enquanto atleta. Desde cedo fui exposto a uma cultura de exigência, disciplina e respeito pelo treino, mas também a um forte sentido de paixão pelo jogo. Aprendi que evoluir não é apenas ganhar, mas compreender o jogo e trabalhar diariamente para ser melhor. Esse enquadramento ajudou-me a construir bases técnicas e mentais muito sólidas, que foram essenciais para dar passos importantes na carreira, primeiro em Portugal e depois em contextos de elite como o Benfica e o Barça. Quando se chega a esses patamares, o talento por si só não chega, mas sim a capacidade de trabalho, a mentalidade e a capacidade de adaptação.

      No dia-a-dia com a tua equipa técnica, que aspetos da comunicação entre Treinador e Atleta te parecem mais determinantes para manter a confiança, a clareza de objectivos e a tua performance individual?

      No dia-a-dia, a comunicação é um dos pilares mais importantes da relação entre Treinador e Atleta. Para mim, clareza e honestidade são fundamentais. Saber exatamente o que é esperado de mim, qual o meu papel dentro da equipa e quais os objetivos individuais e coletivos cria confiança e estabilidade emocional.

      Para além disso, valorizo muito treinadores que sabem ouvir, que explicam o porquê das decisões e que mantêm uma linha de comunicação coerente ao longo do tempo.

      Não menos importante é o conhecimento técnico e tático do treinador, isto concede-lhe poder e valida a comunicação com os jogadores. Por muito boa que seja a comunicação, se ela for vazia de soluções para os jogadores, o treinador acaba mais tarde ou mais cedo por perder os jogadores.

      Observando as dinâmicas de treino nos clubes por onde passaste, que práticas (sejam rotinas, feedback ou outros hábitos relevantes) identificas como mais eficazes para o teu desenvolvimento técnico e táctico?

      Diria que não apenas dizer o que está errado, mas explicar como melhorar e dar tempo para aplicar é um aspecto fundamental na formação de jovens jogadores.

      Outro aspeto fundamental é a ligação entre o treino e o jogo. Quando os exercícios têm contexto, intenção e ligação direta ao modelo de jogo, o atleta aprende mais rápido e sente que o treino faz sentido.

      A formação de Treinadores é cada vez mais discutida no desporto. Na tua opinião e da tua experiência, que competências, um Treinador de Hóquei em Patins (ou outra modalidade) deve dominar, para além da componente técnica e táctica, para realmente potenciar os atletas que lidera?

      Para além do conhecimento técnico e tático, acredito que um treinador deve dominar competências humanas e pedagógicas. A capacidade de liderança, empatia, gestão de grupo, leitura emocional dos atletas e saber adaptar a mensagem a diferentes perfis é hoje indispensável.

      Como atleta, que benefícios observas quando existe uma equipa técnica que investe na evolução/conhecimento e aplicação prática de novos modelos de forma contínua (em termos de planeamento, modelos de treino, etc)?

      Quando uma equipa técnica investe de forma contínua na sua própria evolução, isso reflete-se diretamente no rendimento dos atletas. Enquanto atleta, sinto-me mais estimulado quando percebo que existe reflexão, adaptação e vontade de melhorar. Isso gera confiança no trabalho, aumenta o compromisso do grupo e cria uma cultura de excelência onde todos querem evoluir.

      Se tivesses de identificar uma mudança estrutural que gostarias de ver implementada na formação de jovens jogadores em Portugal, qual seria e porquê?

      Se tivesse de identificar uma mudança estrutural, seria a valorização do processo em detrimento do resultado nas idades jovens. Menos foco em ganhar a curto prazo e mais atenção ao desenvolvimento individual, à qualidade do treino e à formação integral do atleta. Criar contextos onde o erro é aceite, onde todos aprendem, e onde o treino é pensado para formar e não apenas para competir, faria uma enorme diferença no futuro da modalidade.

      Para terminar, que mensagem deixarias aos Treinadores e jovens atletas sobre a importância de estabelecer uma relação de desenvolvimento consistente, baseada em respeito, aprendizagem contínua e ambição partilhada?

      Aos Treinadores e jovens atletas, deixo a mensagem de que uma boa relação treinador/jogador constrói-se com respeito, conhecimento, diálogo e ambição partilhada. O sucesso não é imediato, mas é o resultado de um trabalho diário honesto, exigente e consciente.

      Obrigado, João, por partilhares connosco a tua experiência, a tua visão e a importância que atribuis à formação, ao diálogo com a equipa técnica e ao desenvolvimento contínuo do desporto, neste caso do Hóquei em Patins.

      Na Team Performance, acreditamos que o crescimento do desporto em Portugal passa por uma formação sólida dos Treinadores, por uma comunicação clara no treino e na competição e por uma cultura que valorize o desenvolvimento sustentado de cada atleta. E a opinião dos intervenientes também é fundamental.

      Fiquem atentos à próxima edição e até breve!