Nesta edição do Blog da Team Performance, voltamos a centrar a atenção nos fatores que sustentam o alto rendimento no desporto moderno: a construção a longo prazo, a qualidade dos processos de treino, a formação dos Treinadores e o papel decisivo de estruturas bem organizadas no desenvolvimento do atleta.
Desta vez, contamos com a perspetiva de Patrícia Sampaio, atleta olímpica de Judo e uma das principais referências da modalidade em Portugal. Ao longo da entrevista, exploramos o seu percurso até ao pódio internacional, os pilares que marcaram a sua evolução desportiva e a importância de uma preparação integrada física, mental e estratégica no contexto do alto rendimento.
O teu percurso até ao pódio olímpico foi feito de muitos anos de construção. Quando olhas para trás, que pilares consideras terem sido determinantes para chegares ao mais alto nível no judo internacional?
É impossível chegar ao destino final sem o primeiro passo, por isso não posso deixar de destacar a minha entrada no judo e a insistência que o meu pai, irmão e mestre tiveram até conseguirem que eu entrasse definitivamente para o judo. Isso leva-nos ao meu maior pilar da vida, a minha família. Tenho uma estrutura familiar bastante boa, uma família que se orgulha muito de mim e que me ajuda em tudo aquilo que consegue para me facilitar a vida e permitir ter o melhor rendimento possível. Nesse leque, incluem-se alguns amigos mais chegados, que são família também obviamente. Resumindo, acredito que as pessoas de quem nos rodeamos conseguem ter uma grande influência no nosso sucesso. Para além disso, acredito que a minha resiliência e ambição pessoais têm sido um pilar importante na carreira e a definição de objetivos concretos, que nos traz um rumo e uma direção a seguir.
O Judo é uma modalidade extremamente exigente a nível físico e mental. Como descreves o teu processo de preparação diária e que importância tem a estrutura que te rodeia nesse caminho?
Toda a minha estrutura envolvente tem sido fulcral ao longo da minha carreira – tanto a nível pessoal como profissional. Nos últimos anos, tenho construído à minha volta uma equipa multidisciplinar – tenho um treinador de clube (que é também o meu preparador físico), um treinador de seleção, uma nutricionista, psicóloga e um conjunto de médicos e fisioterapeutas da equipa da federação e do comité olímpico a auxiliar-me. No clube e no município, temos tentado ao longo dos anos que a relevância dada ao desporto cresça, melhorando assim as condições e a estrutura que se proporciona a mim e aos restantes atletas. A minha preparação envolve diariamente, direta ou indiretamente, todos esses intervenientes. Com tudo aquilo que trabalho com eles, organizo a dieta com os treinos diários, o descanso e as sessões de fisioterapia/reforço de lesões que necessito.
Ao longo da tua carreira, como evoluiu a forma como encaras o treino e a performance (partindo do foco no resultado para a valorização do processo)?
Ao longo da carreira, e especiosamente nos últimos anos, aquilo que tenho tido mais necessidade de aprender é a gerir as cargas e o meu corpo. Treino sempre no limite e é raro estar completamente sem dores ou lesões, por isso tenho tido a necessidade de aprender a gerir essa questão, de forma a estar apta para treinar e me preparar, mas também para competir e ter uma boa performance. Emocionalmente, evoluí na forma como encaro os resultados – não me deixo iludir por um ouro ou uma derrota no primeiro combate – sei que ambos farão do meu percurso e depois de qualquer um deles, levanto-me no dia seguinte pronta para trabalhar para o próximo. Uma vez que o judo é um desporto em que o ponto mais alto ocorre em ciclos de 4 em 4 anos (jogos olímpicos), temos de ter boa performance durante esse período, mas saber que é no fim que está o nosso objetivo maior.
No alto rendimento, nada é feito de forma isolada. Que papel têm as diferentes áreas de suporte (preparação física, acompanhamento mental, planeamento, análise e recuperação) no teu rendimento competitivo?
Realmente é um conjunto complexo de coisas que precisamos de reunir para atingir o sucesso. Todas as áreas têm sido fundamentais para, juntas, me ajudarem a atingir o meu melhor. Não há receitas milagrosas para o sucesso, para acredito que são esses detalhes que nos conduzem à excelência.
Enquanto atleta de Elite, como geres os momentos de maior pressão competitiva e que estratégias te ajudam a manter consistência ao longo da época?
O facto de já ser competidora há algum tempo traz algumas vantagens, como por exemplo a experiência e a maturidade. Ao longo dos anos, percebi que a pressão é um privilégio, no meu caso de fazer aquilo que mais gosto e de ser uma das melhores do mundo a fazê-lo, e tento usar isso a meu favor. Quando sinto necessidade, perto de algumas provas importantes, resguardo-me mais, fico mais incontactável, para me poder concentrar e guardar a minha energia para a preparação. No dia da competição, gosto de segmentar tudo por tarefas e ir cumprindo tarefa a tarefa, sem stressar com o resultado final.
Para jovens atletas que ambicionam o alto rendimento, que mensagem consideras essencial passar sobre trabalho, paciência e consistência no processo de desenvolvimento?
É muito importante entender que o trabalho sério e consistente é a base para uma carreira de sucesso. Um resultado constrói-se no acumular de vários dias de trabalho, de várias tarefas bem feitas, muitas vezes também de dias menos bons, mas sempre com a resiliência para persistir e tentar novamente. É algo que construímos pacientemente, dia após dia. Não podemos parar de acreditar que no final teremos a nossa recompensa, se fizermos o que estiver ao nosso alcance para isso.
O sucesso traz visibilidade e responsabilidade. Como encaras o teu papel enquanto referência do Judo português e exemplo para as próximas gerações?
Agora gosto muito! Vejo como uma oportunidade de passar a minha experiência e tentar ajudar gerações futuras. Gosto muito de transmitir o que sei, ajudar e de sentir que alguém se possa inspirar em mim.
Para terminar, que visão tens para o futuro do Judo em Portugal e que tipo de estruturas e mentalidade acreditas que serão decisivas para formar mais atletas de excelência?
Acho que há coisas que partem do próprio atleta, uma mentalidade resiliente e trabalhadora não é algo que uma estrutura consiga criar, é inerente ao indivíduo e aos seus objetivos. Portugal tem um grupo de atletas com bastante qualidade, se olharmos para trás podemos ver que já tivemos grande resultados, mas para ser uma potência do judo de verdade, acho que teríamos de olhar a outros países, para aprender mais em termos organizacionais, de estruturas e de condições para dar aos atletas.
